O conflito envolvendo o Irã transformou a geopolítica no principal motor dos mercados globais e o Estreito de Ormuz no maior nó da economia mundial.
O primeiro trimestre do ano começou com um debate relativamente organizado nos mercados: inflação desacelerando em vários países, expectativa de cortes de juros ao longo de 2026 e um certo otimismo com o crescimento, ainda que mais moderado. O roteiro parecia conhecido. A virada veio na transição de fevereiro para março, quando o conflito escalou de forma abrupta e um único ponto geográfico passou a concentrar os olhos do mundo.
O fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, no começo de março, mudou completamente o jogo. Ormuz não é detalhe cartográfico: é gargalo físico. Quando essa passagem trava, mexe-se com uma parcela enorme do fluxo global de petróleo e gás natural liquefeito. E o mercado não espera a falta física se concretizar, ele antecipa o risco.
Três canais, um choque
O impacto entrou por três canais macro muito claros. O primeiro foi o preço da energia. O petróleo, que vinha em níveis bem mais tranquilos antes do conflito, subiu rapidamente para a casa dos três dígitos, chegando a fazer picos próximos de 120 dólares ao longo de março. Mais do que o nível, foi a volatilidade que expôs a nova realidade: o preço passou a reagir a cada manchete, escalada militar, negociação, trégua, violação, bloqueio, reabertura parcial.
O segundo foi a logística e o gás. O choque não ficou restrito ao barril de petróleo. Quando rotas e infraestrutura são afetadas, o gás natural liquefeito entra em crise junto. O mercado de GNL sofreu um estresse intenso, agravado por um ataque a um complexo industrial estratégico que reduziu a capacidade de produção, com um impacto que não se mede em semanas, mas em anos, porque esse tipo de infraestrutura não se recompõe rapidamente.
O terceiro foi o mais traiçoeiro: o da narrativa e do comportamento. Quando a energia fica incerta, o mundo sai do modo "crescimento e inovação" e entra no modo "segurança e custo". O investidor fica mais defensivo, exige prêmio de risco e passa a separar com muito mais cuidado vencedores e perdedores em um regime de estagflação energética.
O dilema dos Bancos Centrais
A guerra reacendeu a pior combinação para a política monetária: inflação via choque de oferta. Os bancos centrais ficaram diante de um dilema sem saída limpa, cortar juros cedo demais significava arriscar a desancoragem das expectativas, segurar os juros altos, preservava a credibilidade, mas sacrificava o crescimento.
Nos Estados Unidos, a inflação ao consumidor subiu, puxada quase inteiramente por energia, enquanto o mercado de trabalho mostrou resiliência. Essa combinação praticamente tirou do radar a expectativa de cortes rápidos, e a curva passou a precificar juros mais altos por mais tempo, pesando especialmente nos setores de crescimento. Na Europa e no Reino Unido, onde a dependência energética é estrutural, o choque negativo de termos de troca aproximou a região do cenário de estagflação e o discurso das autoridades virou cautela máxima.
Um efeito colateral chamou atenção: o ouro, hedge clássico em momentos de tensão geopolítica, não entregou o que a intuição sugeria. Isso porque o dólar ficou muito forte e os juros longos nos Estados Unidos subiram, aumentando o custo de carregar um ativo que não rende. O ouro não competia apenas com o medo, competia com o rendimento.
Brasil: amortecedor e inflação importada
No Brasil, a reação foi mista. O país é exportador de commodities, e energia mais cara melhora os termos de troca, o que funcionou como amortecedor na bolsa, com as empresas de óleo e gás apresentando desempenho relativo melhor enquanto o mercado global apertava. Mas o Brasil não vive só de termos de troca. Energia mais cara e frete mais caro viraram inflação importada, reduzindo o espaço do Banco Central para agir com tranquilidade. As projeções de inflação subiram e, junto, a leitura sobre a taxa terminal de juros também ficou mais alta. O Copom iniciou o ciclo de cortes, mas de forma cautelosa, para preservar credibilidade em um mundo mais instável.
O que esperar daqui em diante
O maior temor dos bancos centrais nesse contexto tem nome: efeito de segunda ordem. Energia sobe, expectativas sobem, o repasse acontece e a inflação se torna persistente. Se isso se concretiza, os juros ficam altos por mais tempo, mesmo com crescimento mais fraco. O mercado passou a trabalhar com três cenários, e a variável que os separa é uma só: Ormuz.
Cenário A
Desescalada real As conversas evoluem, o fluxo por Ormuz normaliza. Petróleo recua, inflação de energia alivia e os bancos centrais recuperam algum espaço — ainda com cautela.
Cenário B
Paz frágil Existe negociação, mas a rota não normaliza totalmente. O petróleo recua do pico sem voltar ao mundo pré-choque, deixando uma cicatriz em inflação e expectativas.
Cenário C
Prolongamento Orisco de cauda: o conflito se estende, energia segue pressionada e o mundo reabre a discussão de recessão global.
O que vale acompanhar são o preço e a volatilidade do petróleo e do gás, os sinais reais de normalização do fluxo por Ormuz, o discurso dos bancos centrais e os indicadores de atividade, que costumam reagir com atraso e são os últimos a contar a história real. Janeiro abriu o trimestre com a ilusão de um cenário organizado. Março o encerrou com a lembrança de que geopolítica, quando escala, não avisa.












